| Antes
mesmo de nascer, a criança é falada, nomeada e inscrita numa linhagem
familiar. Não é de admirar que tenha surpreendido os primeiros pesquisadores
a rapidez com que um bebê, exposto a todo tipo de produção
linguageira, é capaz de adquirir uma ou mais línguas. A língua
(ou as línguas) que se fala(m) no ambiente em que vive a criança,
embora combine(m) fonemas e morfemas articulados segundo posições
determinadas por cadeias sintáticas, passa(m) primeiro pelo corpo da criança,
até que este se deixe capturar numa rede simbólica. Os efeitos de
sentido captados pelos adultos (a partir do início da puberdade), sobrepõem-se
pouco a pouco à qualidade musical, à melodia da voz que encanta
e seduz a criança. Falaremos dessa linguagem maternante e desse afeto que
permanecerão ligados ao saber e ao sabor da(s) língua(s), e que
constituirão o grande desafio para o educador, que trabalha com grupos,
mas que tem que lidar com cada criança, uma vez que a entrada de cada uma
no mundo simbólico é singular e, sempre, como diz Sigmund Freud,
estranhamente familiar. |