ANTIGAS TEORIAS SOBRE O CONFLITO

A formulação de uma teoria abragente sobre o conflito partiu da tentativa de se delinear causas comuns pelas quais os conflitos, de maneira geral, acontencem.
É importante notar que essa tentativa pressupõe que nenhum conflito aconteça por acidente, em função de ação inconsciente, ou ainda pela sublimação de um estado emocional dos indivíduos. Ao contrário, a maioria dos teóricos do conflito acredita que os conflitos acontecem em função de uma "superabundância da racionalidade analítica" (HOWARD, Michael).
A segunda etapa para a formação de uma teoria sobre o conflito concerne à descrição de seu objeto de estudo:

Conflito é a interação entre atores internacionais que competem ente si por uma vantagem que só a um deles poderá ser conferida.

Essa competição é caracterizada pelos esforços dos oponentes no sentido de neutralizarem, ofenderem ou eliminarem-se mutuamente.
Quanto à classificação, os conflitos podem ser violentos ou não-violentos, abrangentes ou limitados, solúveis ou insolúveis, e moderados ou não-moderados.

É importante salientar também, que as teorias sobre o conflito não se dedicam a explicar as manifestações dos indivíduos contra o sistema em que estão inseridos. (Ainda que abordagens muitas marxistas possam ser feitas de modo a abrangerem sistêmicamente os conflitos).

MICRO E MACRO TEORIAS SOBRE O CONLFITO


A maior distinção que se pode fazer entre os teóricos do conflito está relacionada ao modo como eles concebem a natureza humana e, conseqüentemente, de suas instituições.
Opõem-se os dissidentes de Hobbes e os de Rousseau. Os primeiros acreditando que sendo o homem mau, o conflito não é senão o resultado da natureza competitiva, egoísta e guerreira do prórpio homem. Os segundos defendendo a idéia de que o conflito é uma situação artificial e temporária.
A partir daí, então, fundamentam-se as divergências sobre a origem dos conflitos: endógena ou exógena.
Na primeira hipótese, da origem endógena dos conflitos, temos que: em vista de restabelecerem as relações de força no sistema internacional, os indivíduos perturbam a harmonia e instauram o conflito entre si, esforçando-se para conseguir uma vantagem (relativa) maior consolidada pelo resultado final.
Enquanto na segunda, distorção das relações de cooperação entre os homens surge em função dos constrangimentos que as desigualdades, institucionalizadas pelas estruturas de poder, impõem aos indivíduos.

Por último, distanciam-se ainda aqueles que acreditam que o conflito deve ser considerado algo destrutivo e socialmente disfuncional, daqueles que, por outro lado, acreditam que o conflito é a única forma de emancipação e melhoria da condição social dos indivíduos.

CONFLITO INTERPESSOAL E CONFLITO INTERNACIONAL

No passado, prevaleceu a concepção platônica de que o Estado é a maximização do indivíduo, e, portanto, que a agressividade do primeiro era a mera expressão da agressividade segundo.
No entanto, essa concepção nos leva a uma série de reducionismos, pois despreza o Estado enquanto ator racional, possuidor de interesses estratégicos próprios, ao mesmo tempo em que atribui à personalidade inerente dos indivíduos características que são fruto da simples redução do processo macroscópico - supervalorizando os impulsos agressivos individuais. Em outras palavras, ignora o fato de que os diversos atores têm papéis, interesses e habilidades muito distintos e ainda que podem atuar em diferentes contextos.
Libertados da escala individual, os tipos de conflito puderam ser estudados ou analisados de acordo com o tipo de motivações que os levam a acontecer.
A maioria das antigas investigações sobre a guerra e suas causas trata justamente de casos específicos em circunstâncias, mas não se chegou a sistematizar as motivações comuns aos conflitos numa análise abstrata e atemporal.
Elas nos permitem entender conflitos isolados a partir de seu contexto histórico e apresentam as motivações políticas, econômicas, psicológicas, e religiosas para as guerras, mas não se dedicam a sistematizar o processo decisório ou as racionalizações comuns que se esboçam sobre as guerras em geral.
Esses esforços só foram vistos mesmo, a partir da identificação de um estudo sobre o conflito enquanto fenômeno repetido e precursor da história, ulterior aos estudos de caso vastamente praticados.

A GUERRA E O CRISTIANISMO

O Cristianismo é apontado como a primeiro movimento a buscar humanizar ou limitar a guerra, especificando os casos e cenários nos quais a guerra teria legitimidade ou não para prosseguir.
Deve-se à Igreja a concepção de que a guerra deve ser motivada com uma intenção moral direita correta, e conduzida por meios que não sejam intrínsecamente imorais, pois isso tornaria sua execução injusta.
Além disso, o cristianismo estabeleceu para o mundo ocidental - e conseqüentemente para todo o mundo após a Primeira Grande Guerra - que como pressuposto para a guerra deve-se ter que é necessária a existência de indícios razoáveis de que a recorrência à força será mais produtiva para o bem que para o mal e que será capaz de restaurar a ordem e promover justiça.
A Igreja tratou de discutir também os tipos de armas cujo emprego deveria ser proibido nas guerras, bem como os que seriam permitidos; quais classes de pessoas que estariam dispensadas do serviço militar e ainda quais deveriam, sobretudo, ser protegidos contra ações militares.
Foi ainda defendida pela Igreja a idéia de que a decisão de iniciar hostilidades violentas não poderia ser tomada por um indivíduo privado, mas apenas por autoridades públicas - que deveriam comprometer-se a exaurir todos os meios pacíficos de solução da disputa antes de apelar para o uso da força.
E, ainda que os filósofos da escolástica medieval percebessem uma certa dicotomia entre o discurso da Igreja em relação ao comportamento cristão de seus fiéis e o comportamento dos Estados, os fiéis continuaram a ser incentivadas a oferecer a outra face quando tivessem direitos violados, pois a idéia de vida eterna fazia com que eles esperassem assim a salvação após a morte, enquanto os Estados tinham legitimidade da Igreja para declarar guerras.
A justificativa se fundamentada na idéia de que sendo efêmera a vida de um Estado, este deveria estão salvaguardar o bem social temporal, recorrendo inclusive à força se necessário.
A Igreja foi a primeira instituição a exercer uma função de arbitragem em relação aos conflitos no sistema internacional.


 

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