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Interdependência
para os globalistas
INTRODUÇÃO
O
objetivo desta análise é tentar delinear como
a teoria de Relações Internacionais globalista
vê o fenômeno da interdependência e suas repercussões
sobre os Estados e a sociedade no geral.
Para tal, utilizarei como base os livros "A mundialização
do Capital", do autor François Chesnais (São
Paulo: Xamã, 1996) e "Ano 501 - A Conquista continua"
de Noam Chomsky (São Paulo: Página Aberta, 1993).
Porém, não devo deixar de salientar que somente
algumas partes das obras foram selecionadas para esta análise,
pois elas não são voltadas especificamente para
o nosso tema, valendo a sua leitura completa para maior aprofundamento
sobre os assuntos dos títulos.
François Chenais é francês, especialista
em economia industrial e economia da inovação
tecnológica e, autodenominado de esquerda. Sua expressão
"mundialização do capital" corresponde
ao termo inglês: globalização. A idéia
central do seu livro é que o desenvolvimento do capital,
entendido como instituições e mercados financeiros,
passou ao longo do tempo por um processo de liberalização
e mundialização associado ao ganho de mobilidade.
Dotado destas três novas características, o capital
teria solapado a autoridade política do Estado nacional,
que teve sua capacidade de intervenção reduzida
há muito pouco, tornando-se incapaz de se sobrepor ao
capital privado (página 301). O autor vai analisar os
efeitos e as relações criadas no globo por este
processo ao longo do livro, mas principalmente no capítulo
12 (Mundialização, regulação e depressão
longa), de onde tiramos os conceitos para nossa análise.
Noam Chomsky é americano, lingüista e mais conhecido
como polemista e adversário da hegemonia americana sobre
o mundo. É conhecido por seus livros sobre política
internacional ou questões internas dos EUA, mesmo que
não muito citado em seu país, pela própria
oposição ao governo. Neste livro em especial,
o autor disserta sobre a hegemonia americana por sobre o mundo
vista por um ângulo imperialista e negativo. Do seu segundo
capítulo "Os contornos da ordem mundial" retiramos
sua visão de interdependência entre centro e periferia.
CONCEITUALIZAÇÃO
Descriminada a base da análise, devo primeiramente especificar
nossa base conceitual: Globalismo e Teoria da Dependência.
Já o conceito de Interdependência Complexa será
exposto primeiramente na visão dos seus criadores Robert
Keohane e Joseph Nye e, em seguida trabalhado na visão
globalista.
Globalismo
Segundo os autores Paul Viotti e Mark Kauppi (International
Relations Theory: realism, pluralism. Massachusetts: Macmilian,
1993), a imagem das relações internacionais globalista
foi inspirada no autor Karl Marx e no marxismo em si. Tal teoria
de contrapõe às duas outras predominantes: realismo
e pluralismo, e tem como conceitos básicos:
"
Análise do sistema internacional como um todo, onde os
Estados e outros atores interagem, cada um de maneira distinta.
" Relações Internacionais vistas da perspectiva
histórica, a qual reflete na política atual dos
Estados. O capitalismo define o sistema internacional e condiciona
o comportamento de todos os Estados e sociedades. Alguns Estados
ganham com o capitalismo, outros não.
" Estados e outros atores internacionais são importantes
fontes de estudo. Suas coalizões e mecanismos de dominação.
O mundo é marcado pelas relações entre
centro e periferia, e é eminente o conflito Norte (industrializado)
x Sul (subdesenvolvido), e de acordo com a teoria da dependência
que visa manter o Terceiro Mundo na posição de
dependente.
" Importância dos fatores econômicos como ponto
chave para explicar a dinâmica do sistema internacional.
Teoria
da Dependência
"
Terceiro mundo é pobre por sua história marcada
pela dominação colonial e forçosa entrada
na economia mundial pelo expansionismo do Primeiro Mundo.
" Economia do Terceiro Mundo é vista como engrenagem
para as necessidades das economias do Primeiro Mundo.
" Relações coloniais entre Primeiro e Terceiro
Mundo continuam as mesmas, mesmo após o processo de descolonização;
e é tida como injusta porque o Primeiro Mundo é
desenvolvido industrial e tecnologicamente, e o Terceiro Mundo
ainda não chegou a tal estágio e será muito
difícil chegar pela eminência da dominação.
Interdependência
Complexa (por Robert Keohane e Joseph Nye)
"
Refere-se às várias conexões transnacionais
complexas (interdependências) entre Estados e sociedades
" Relações econômicas apresentaram
crescimento enquanto que força militar e equilíbrio
de poder decresceram em importância (mas ainda permanecem
relevantes). Tal crescimento aumenta a probabilidade da existência
de cooperação entre as nações.
" Introdução do conceito de regimes para
regular as ações dos Estados. Aproxima-se da idéia
de institucionalismo liberal.
A INTERDEPENDÊNCIA NA VISÃO GLOBALISTA
A maioria dos estudos das relações internacionais
na visão globalista fala da relação de
dependência que o Terceiro Mundo tem para com o Primeiro.
Raro é o material dedicado ao tema da interdependência,
o que nos obriga a procurar material que não especificamente
é de teoria, ou mesmo de relações internacionais,
mas que com alguma interpretação nos leva a este
caminho. Assim, baseando-nos nos livros anunciados na introdução
vamos tentar estabelecer relação entre globalismo
e interdependência nos seus pontos possíveis.
Como
dito antes, segundo o argumento globalista, existe uma relação
global de conflito norte x sul no sistema internacional , onde
a parte norte é composta por Estados desenvolvidos, dos
meios mais avançados de produção e tecnologia;
e a parte sul é composta por Estados pobres, subdesenvolvidos.
Então, o norte ou centro tenta a todo custo consolidar
esta relação que o sul ou periferia tem para com
este.
Mas
será que na visão globalista existe algo a mais
que a relação de dependência? De alguma
forma poderia a parte norte do globo depender também,
ainda que não em semelhante grau da parte sul? Para que
os Estados ricos necessitam dos pobres?
De
fato, o globalismo entende que também existe certa dependência
dos Estados desenvolvidos em relação aos pobres.
Porém, tal dependência se caracteriza pela vontade
de aumentar a própria dependência dos pobres frente
aos primeiros. As análises de Chomsky e Chesnais dos
livros especificados sobre esta interdependência, ou melhor,
da dependência do norte para com o sul complementam-se
e resumem-se nos pontos:
1.
O sul como fonte de matéria prima
Nenhum Estado desenvolvido é auto-suficiente no tocante
a matéria prima necessária para seu campo produtivo.
Os Estados Unidos, por exemplo, possuem amplo território
e muitos recursos naturais, porém insuficientes para
sua capacidade industrial. Não produzem todo o petróleo
que consomem, sendo obrigados a recorrer ao Oriente Médio.
Também não possuem na totalidade outras matérias
primas, como minerais, aos quais recorrem à América
Latina ou a África.
A Europa também é deficiente em matérias
primas, em grau maior, mas nem se compara ao Japão. O
Japão é extremamente deficiente em petróleo
e minérios, e assim como a Europa é fornecido
pela Ásia e África. Poder-se-ia dizer até
que o Japão entraria em colapso se lhe fosse cortado
tal suprimento, como quase aconteceu quanto este sofreu um embargo
econômico após o atentado à base americana
de Pearl Harbor em 1941.
Assim, Estados desenvolvidos dependem do fornecimento de recursos
naturais dos Estados pobres do sul. Isto se dá ou porque
a capacidade produtiva está alocada na fabricação
de bens de valor agregado, que necessitam de matérias
primas não produzidas suficientemente. É certo
que, um Estado depende mais que outro, como a comparação
entre Estados Unidos e Japão. O grau de dependência
varia.
2.
O Sul é fornecedor de mão-de-obra barata
Com salários médios a U$ 1.00 por dia na Ásia,
ou menos de US 100.00 ao mês no Brasil e parte da América
Latina, as empresas multinacionais vêem nestes lugares
chances reais de maximizar os seus lucros pela fabricação
dos mesmos produtos feitos em seus países de origem,
porém, com um custo muito menor.
Dependendo do seu poder de influência no governo do Estado
receptor da empresa, esta poderá até influir na
legislação trabalhista do local, o que explora
ainda mais a classe operária.
3.
Expansão do capital rentável
Segundo
Chesnais, com o desenvolvimento do capitalismo, o propósito
da acumulação de capital ganhou um novo sentido.
Agora, o capital busca o acúmulo pela exploração,
a expansão, ou seja, procuram aplicá-lo em empreendimentos
rentáveis. O capital em si se mundializou, liberalizou
e ganhou mobilidade.
O
Terceiro Mundo é então, o melhor lugar para a
aplicação deste capital, tarefa a qual pode se
dar por meio de investimentos diretos ou indiretos, fornecimento
de empréstimos, abertura de empresas.
Em
qualquer uma das formas, o capital gera lucro, às vezes
na forma de ágio, que por sua vez é revertido
para o Estado de origem. Assim, o capital estrangeiro entra
e sai com grande facilidade dos Estados periféricos,
deixando-os à mercê deste, num quadro de instabilidade
irreversível.
4.
Mercado interno da periferia
É
indiscutível o fato de que alguns Estados do sul, mesmo
pobres, possuem grande mercado consumidor interno. O caso da
China chega a ser extremo; junto com a Índia possuem
mais de um bilhão e meio de pessoas. A América
Latina também é foco de grande cobiça dos
Estados do centro, como mostra a proposta da Alça. Fora
as compras governamentais, que representam grande possibilidade
de ganho.
É
necessário ressaltar que o poder aquisitivo destas populações
não é muito alto, mas serve como fonte de escoamento
do excesso de produção dos países capitalistas,
que levarão todo o lucro destas vendas para si.
CONSEQÜÊNCIAS
Interdependência
Negativa
Vimos
que os Estados do Primeiro Mundo de certa forma dependem dos
Estados periféricos. Mas, tomando-se os conceitos de
interdependência dos autores Nye e Keohane, para quem
a interdependência pode ser um jogo de soma positiva,
podemos concluir que, segundo a visão globalista, não
se encaixa a idéia de interdependência positiva,
pelo contrário, todos os aspectos da relação
de interdependência entre norte e sul, são extremamente
negativos, pois seu principal propósito é manter
o Terceiro Mundo subdesenvolvido e acentuar o grau de dependência
deste para com o Primeiro Mundo.
Os
autores Noam Chomsky e François Chesnais vão avaliar
assim os resultados destas relações:
"
O sul consegue comercializar somente matérias primas
ao norte, a um preço muito baixo, o que não lhe
permite grandes ganhos para investir;
" O sul não consegue desenvolver políticas
econômicas nacionalistas, pois todo o investimento externo
não é direcionado a estas áreas;
" As economias capitalistas e suas corporações
exploram o máximo da força de trabalho da classe
operária mundial da periferia, numa luta de classes internacional;
" A presença de empresas multinacionais nos países
periféricos monopoliza o capital e a tecnologia;
" Multinacionais, bancos internacionais e empresas de investimentos
são os dirigentes globais e espalhadas pelo mundo podem
operar com menos coerção, menos interferência;
" A concentração de capital nos centros urbanos
condena milhões de assalariados à marginalização
e decadência cultural;
" Como o capital mundial tem alta mobilidade e os estados
periféricos são altamente sensíveis às
mudanças internacionais, acentua-se no mundo a realização
das prioridades dos detentores do capital enquanto cai busca
de soluções as necessidades mundiais;
TRECHOS SELECIONADOS
"
"Ao sul foi determinado o papel de provedor de serviços:
provedor de riquezas, mão-de-obra barata, mercados, oportunidade
de investimentos e, mais tarde, o lugar para se exportar poluição"
(Chomsky, pág. 53).
" Os EUA pretende acabar com o nacionalismo econômico
dos Estados da periferia. "...a filosofia do novo nacionalismo,
[que] abraça as políticas projetadas para induzir
em maior distribuição da riqueza e para melhorar
o padrão de vida das massas." (Chomsky, pág.
55).
" "No sul, em contraste, a "Nova Ordem Mundial"
imposta pelos poderosos é concebida, não sem razão,
como uma triste luta de classes internacional, com as economias
capitalistas de Estado e suas corporações tradicionais
monopolizando os meios de violência, controlando o investimento,
o capital e a tecnologia, e planejando e administrando as decisões,
à custa da imensa massa de população"
(Chomsky, pág. 69).
" "Morgan observa a "hipocrisia das nações
ricas ao solicitar mercados abertos no terceiro mundo enquanto
fecham o seu próprio". Ele poderia ter acrescentado
a informação do Banco Mundial que a redução
da renda nacional do sul causadas pelas medidas protecionistas
dos países industriais equivale a cerca de duas vezes
a soma fornecida pela ajuda oficial, destinada sobretudo à
promoção de exportações, cuja maior
parte vai para os setores mais ricos dos países "em
desenvolvimento" (que apesar de menos necessitados são
grandes consumidores." (Chomsky, pág. 91)
" "A mobilidade do capital, juntamente com o movimento
de liberalização e desregulamentação,
levaram a melhor sobre o quadro sócio-político
do Estado nacional..." (Chesnais, pág. 306)
" "... a mobilidade do capital permite que as empresas
obriguem os países a alinharem sua legislação
trabalhista e de proteção social àquelas
do Estado onde forem mais favoráveis à elas (isto
é, onde a proteção for mais fraca)."
(Chesnais, pág. 306)
" "...estes [Estados Industrializados] passaram a
se interessar unicamente por relações seletivas,
que abrangem apenas um número limitado de países
do Terceiro Mundo. Certos países ainda podem ser requeridos
como fontes de matérias primas....Outros são procurados
como, sobretudo pelo capital comercial concentrado, como bases
de terceirização deslocalizadas a custos salariais
muito baixos....Mais uns poucos países. Por fim, são
atrativos devido ao seu enorme mercado interno potencial....Mas,
fora esses casos, as companhias da tríade precisam de
mercados, e, sobretudo, não precisam de concorrentes
industriais de primeira linha: Já lhes bastam a Coréia
e Taiwan!"
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