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A
Interdependência para os Neo Realistas
Neste
estudo trataremos da interdependência segundo a visão
Neo-realista, utilizando os escritos de Kenneth N. Waltz.
Para os Neo-realistas, a importância da interdependência
varia de acordo com o cenário em questão. O cenário
pode ser organizado (cenário nacional) ou não
(cenário internacional). Por exemplo, o Brasil, internamente,
é considerado um cenário organizado uma vez que
possui um governo central, pode de polícia organizado,
etc... Já o cenário internacional não possui
qualquer forma de governo central, muito menos uma polícia
mundial. Estas são as diferenças básicas
entre o cenário interno dos Estados e o cenário
internacional. Devido a estas diferenças na estrutura,
as interdependências no nível internacional e nacional
são diferentes.
Nível
Nacional
Para Waltz, em um cenário ou estrutura organizada, as
unidades são livres para a interdependência uma
vez que estas não precisam se preocupar com a segurança.
A autoridade central cuida da segurança de cada uma das
unidades. Com sua segurança garantida, as unidades são
livres para buscarem a especialização.
Neste sentido, a especialização gera a interdependência.
Aqueles que trabalham na indústria se especializam nesta
função. Aqueles que vivem da agricultura se especializam
nesta função. O industrial depende dos que plantam
para comer. Os que plantam dependem dos industriais para adquirirem
suas máquinas. Podemos concluir que a especialização
gerou interdependência entre estas duas unidades. Uma
necessita da outra. Para Waltz, sair deste processo pode ser
caro demais, visto que cada unidade especializada deverá
trabalhar para suprir todas as suas necessidades, diminuindo
o retorno que pudesse ter numa relação interdependente.
(WALTZ, 1986, pp 101).
Nível Internacional
Embora os Estados formalmente sejam iguais, eles diferem em
capacidades (capabilities). Para Waltz, é destas diferenças
de capacidade que surge a interdependência. Por exemplo,
o Japão possui poucos recursos minerais, por isso depende
de outros países para adquirir estes recursos. Em contrapartida,
o Brasil importa eletrodomésticos japoneses uma vez que
não possui as mesmas tecnologias, criando assim uma rede
de conexões que surgiu em face da desigualdade de capacidade
entre as nações.
Na perspectiva Neo-realista, a integração - termo
utilizado para se referir a interdependência em cenários
organizados - entre as nações poderia trazer benefícios
para toda a humanidade, mas isto está longe de acontecer.
O primeiro motivo pela qual os Estados não cooperam para
benefício geral, segundo Waltz, é que em um sistema
de auto-ajuda (anárquico), os Estados gastam uma porção
dos seus esforços para se protegerem. Estes gastos poderiam
ser utilizados para trazer benefícios para o mundo por
meio de vários setores, mas isso não acontece.
A segurança nacional vem em primeiro lugar. Isso talvez
não aconteceria se a proteção não
fosse prioridade nas agendas estatais. Nesse caso, os Estados
estariam livres para investir em outros setores, aumentando
assim a produção mundial. Assim, segundo Waltz,
todos talvez ganhariam (WALTZ, 1986, pp 101).
Ainda de acordo com Waltz, a especialização trabalha
em benefício de todos, mas estes benefícios não
são distribuídos igualmente entre os Estados.
Isso é o que o autor chama de ganho relativo. Esta desigualdade
nos ganhos serve como empecilho à promoção
da interdependência entre os Estados. Em um caso no qual
todos ganham, um Estado pode se questionar com perguntas como
estas: quem ganhará mais? como todos estes ganhos serão
divididos?
Outro motivo levantado por Waltz que faz com que, principalmente
os Estados de menor porte, temam a interdependência é
que os Estados com mais poder podem utilizar sua força
para destruir sua parceria. No caso de ganhos relativos, o que
ganhou mais pode utilizar-se disso para destruir o que ganhou
menos. Estes ganhos podem ser convertidos em recursos de poder
para destruir o outro. Mesmo quando os ganhos forem idênticos,
os Estados temem uma possível traição de
seus parceiros.
A insegurança é um dos principais motivos que
fazem os Estados evitarem a interdependência. Quanto mais
inseguros estiverem os Estados, mais difícil será
a cooperação entre eles. Como já vimos,
os Estados temem que os ganhos sejam divididos desproporcionalmente
e também temem se tornarem dependentes (vulneráveis)
de outros Estados.
Caso os Estados desejem se especializar para beneficiar assim
toda a humanidade, todos eles se tornarão dependentes
mutuamente. Porém, esta dependência é algo
que nenhum Estado deseja. Para Waltz, o mundo poderia ser bem
melhor caso houvesse uma elaborada divisão do trabalho
entre os Estados que se especializariam nas áreas em
que possuem mais facilidade. Porém, neste caso, surgiria
uma intensa interdependência.
Outro motivo que serve como empecilho à interdependência
é que os Estados interdependentes se preocupam em proteger
aquilo que são dependentes. Os Estados, principalmente
os mais fortes, passam a ampliar sua área de controle
a fim de garantir sua auto-suficiência. (WALTZ, 1986,
pp 103). Em outras palavras, os Estados buscam a manutenção
ou ampliação de sua autonomia no cenário
internacional.
A vulnerabilidade também é algo que afasta os
Estados da interdependência. Quando maior for a interdependência,
maior é a vulnerabilidade de um Estado com relação
a outro. Em suma, os Estados não querem ser dependentes,
mas desejam garantir sua auto-suficiência.
Conclusão
Vimos
que existem diferenças quando pensamos em interdependência.
É possível em cenários organizados, mas
é bem mais complicado em cenários desorganizados.
No primeiro o lema é "especialize-se" (WALTZ,
1986, pp 103). Já no segundo o lema é "cada
um por si" (Ibidem).
Para concluir podemos dizer que, os Estados gastam com a segurança
diminuindo a produção mundial. Em um cenário
desorganizado, cada unidade busca uma posição
de auto-suficiência uma vez que ninguém pode contar
com ninguém. Com isso, a divisão de funções
é negada.
Segundo Waltz, "gastos com a segurança não
são produtivo para todos, mas são inevitáveis"(WALTZ,
1986, pp 104). Ao invés de investir estes recursos em
benefícios diretos tais como a educação,
desenvolvimento econômico, produção de bens
e serviços, etc, a recompensa dos Estados para agirem
desta forma é a manutenção de sua autonomia.
Waltz conclui dizendo que os Estados competem e não contribuem
para o beneficio geral. (WALTZ, 1986, p. 104).
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(1) WALTZ, Kenneth N. in KEOHANE, Robert O. Neorealism and
its critics. 1986, New York, Columbia University Press.
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