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Interdependência
Complexa (1)
A
Interdependência Complexa foi categorizada por Viotti
e Kauppi(2) como pertencente à imagem pluralista das
Relações Internacionais por possuir as seguintes
características: Atores estatais e não estatais
são importantes; o Estado não é um ator
unitário e suas partes podem agir transnacionalmente;
a agenda internacional é composta de diversos temas,
como economia e bem estar social, que são tão
ou até mais importantes que a Segurança. Ademais,
a Interdependência Complexa favorece a cooperação,
tornando possível jogos de soma positiva e a estabilização
do Sistema Internacional via instituições internacionais
e padrões de conduta que se formam ao longo do tempo.
Segundo Raimundo B. dos Santos Júnior, a Interdependência
Complexa é o resultado da multiplicação
das interconexões globais e da aceleração
fluxos financeiros, demográficos, de bens, serviços
e de informações. Além disso, os atores
que operam esses fluxos são extremamente variados. Organizações
intergovernamentais, multinacionais, organizações
não governamentais, sociedade civil, dentre outros, ganham
espaço nas decisões e discussões internacionais
e o Estado deixa de ter o único papel relevante nas relações
internacionais, embora ainda proeminente.
Dois fatores foram condicionantes para se chegar a esse estado
de coisas: o desenvolvimento da tecnologia e a não proeminência
dos temas de Segurança na agenda internacional.
O contínuo aperfeiçoamento das tecnologias de
produção, comunicação e transportes
aprimorou a qualidade e barateou as transações
internacionais, possibilitando a disseminação
desses meios em tal escala que tornou muito difícil ao
Estado monitorar os fluxos que cruzam suas fronteiras. Tal liberdade
de movimento também foi aumentada pois, para o Estado,
não representavam graves ameaças à Segurança.
Ainda com relação à Segurança, a
rigidez da divisão bipolar e a improbabilidade de um
confronto entre os pólos devido ao perigo de aniquilação
nuclear, projetaram outras questões, principalmente as
econômicas, para o topo da agenda internacional. Com isso,
Estados com menor força bélica eram capazes de
pressionar potências militares via economia, como ocorreu
na crise do petróleo da década de 1970. Para Santos
Júnior (2000, pp.49), houve uma quebra na hierarquia
entre a "alta política" (estratégico-militar)
e "baixa política" (questões econômicas,
culturais e sociais).
Assim, uma vez que os fluxos ocorrem numa intensidade muito
grande, com diversos atores interagindo em variados níveis,
forma-se uma teia de relações interdependentes.
E, como um movimento brusco numa das pontas pode abalar pelo
menos boa parte da teia, diz-se que os custos de rompimento
são muito altos para os atores.
Obviamente, uma relação de interdependência
é uma relação na qual existem atores mutuamente
dependentes. Isso não quer dizer que os benefícios
e constrangimentos dessa relação sejam simétricos.
Na verdade, geralmente as relações são
assimétricas e é nesse caso que é possível
projetar poder. A diferença, porém, é que
agora o poder não é exclusivamente pautado pelo
poder bruto, mas sim pela habilidade dos atores em articular
os diversos temas em questão para atingir seus objetivos.
Trata-se de negociar e de barganhar trazendo à mesa a
sua capacidade de abalar a teia internacional.
De acordo com Raimundo B. dos Santos Júnior, Nye e Keohane
indicam duas dimensões nas quais a interdependência
pode ser trabalhada, que são a sensibilidade e a vulnerabilidade.
A sensibilidade "relaciona-se com interações
no interior de uma armação sociopolítica,
quando a ação do ator A provoca reflexos em B"
(SANTOS JÚNIOR, 2000, pp. 250). Trata-se dos abalos sentidos
e da capacidade de ajuste para superar os reflexos de uma ação
tomada por outro ator. Já a vulnerabilidade "ocorre
quando um ator continua sujeito a custos impostos por eventos
externos, mesmo após ter desenvolvido um conjunto de
medidas para superar os problemas causados por outrem"
(Ibidem). Portanto, a vulnerabilidade é algo mais profundo
do que a sensibilidade e pode desencadear ações
bruscas para reverter essa situação.
Tomemos como exemplo de sensibilidade a hipotética decisão
da sede da Volkswagen, na Alemanha, decidir extinguir a produção
de carros populares mundialmente. Tal medida afetaria negativamente
não só as empresas brasileiras que fornecem peças
para esses veículos, mas também os operários
que trabalham nessa linha de montagem e até a balança
comercial brasileira, visto que o país exporta carros
populares. No entanto, esses malefícios poderiam ser
revertidos caso o governo brasileiro oferecesse incentivos para
a Ford e para a Fiat suprirem aquelas demandas. Nota-se que
houve abalos em diversos setores da sociedade brasileira, mas
que os problemas foram solucionados.
Podemos pensar num exemplo de vulnerabilidade se pensarmos na
seguinte situação. Suponhamos que os governos
da Argentina, Brasil e Bolívia decidam bloquear as fronteiras
do Paraguai, proibindo do dia para a noite não só
o comércio, mas também o acesso terrestre e fluvial
a esse país. Nesse caso, o Paraguai seria "estrangulado"
até a falência - o país é vulnerável
ao bloqueio do comércio com seus vizinhos.
Indo além no exemplo do Paraguai, podemos imaginar uma
situação em que esse país vulnerável
a seus vizinhos poderia virar o jogo. Suponhamos que o Paraguai
apresente uma queixa contra o bloqueio ao comitê de direitos
humanos da ONU e prove que não há motivos para
tal embargo. Suponhamos que o Conselho de Segurança ameace
um embargo total contra Argentina, Bolívia e Brasil caso
eles não suspendam o bloqueio, o que levaria esses três
países ao colapso. Nesse exemplo, a aliança dos
três países, mesmo mais forte em todos os sentidos
se comparados ao Paraguai, teve que retroceder em decorrência
de pressões externas desencadeadas pela articulação
da diplomacia paraguaia.
Por essas razões, num cenário de interdependência,
onde há a possibilidade de jogos de soma positiva para
a maioria os atores envolvidos, a redução da incerteza
é necessária para que os negócios possam
se desenvolver com o máximo de eficiência. É
aí que está a importância das organizações
internacionais. Essas organizações, como a ONU
e a OMC, funcionam como um canal no qual os diversos atores
(de acordo com o propósito da organização)
podem dialogar e harmonizar suas ações para que
os impactos advindos de determinadas ações sejam
os menores possíveis. Desse modo, a normatização
e a formação de padrões de conduta nessas
organizações, e mesmo em relações
bilaterais, podem constituir éticas internacionais redutoras
de incertezas.
CONCLUSÃO
A
Interdependência Complexa é caracterizada pelo
aumento de interconexões e fluxos internacionais, operados
por diversos atores, estatais ou não. Esses fluxos e
interconexões relacionam-se a diversos temas da agenda
internacional, como a economia, o meio ambiente, direitos humanos
e a segurança, sendo que esse último deixa ser
o mais importante da agenda internacional. A interação
de diversos temas e atores leva a criação de uma
teia interdependente, na qual um abalo numa de suas pontas pode
por em risco toda a teia e, portanto, o interesse de outros
atores. Nesse sentido, a maneira de se projetar poder é
articulando os variados temas nos quais o seu interlocutor é
sensível ou vulnerável, fazendo a teia balançar
de acordo com seus interesses. Contudo, como ações
bruscas (guerras ou embargos, por exemplo) podem por em risco
todo o sistema, a Interdependência Complexa favorece a
criação de padrões de conduta e de organizações
internacionais para facilitar o diálogo e a cooperação,
reduzindo incertezas para que os fluxos e interconexões
possam se desenvolver com mais eficiência.
________________
(1) BEDIN, Gilmar Antonio; OLIVEIRA, Maria Odete; SANTOS
JÚNIOR, Raimundo Batista dos; MYAMOTO, Shiguenoli - Paradigmas
das Relações Internacionais, 2000, Ijuí,
Ed. UNIJUÏ.
(2) VIOTTI, Paul R.; KAUPPI, Mark V. - International Relations
Theory: realism, pluralism, globalism, 1993, Needham Heights,
Ed. Book Press
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