Metodologia Científica

O quadrante básico de qualquer pesquisa científica é composto por um problema, uma hipótese e suas variáveis.

A etapa inicial consiste em formular o problema de forma científica, isto é, que não seja valorativa (problemas de valor) ou simplesmente não possua relação entre variáveis (problemas de engenharia).
Não há como obter uma resposta científica para problemas como: "Qual é o melhor meio de conseguir a total abertura de mercado?", "As alianças ideológicas são mais bem sucedidas que as econômicas?", "O liberalismo é hoje mais desejável que o realismo?".

Estes são os chamados problemas de valor e devido ao alto grau de pessoalidade não são considerados científicos, assim como os problemas de engenharia que consistem em meras perguntas para como fazer algo: "Como conseguir a abertura do mercado?", "Como estruturar uma aliança ideológica?", "E uma econômica?".

Por não serem proposições testáveis, obterem juízo de valor e não estabelecerem variáveis mensuráveis permanecem no âmbito do senso comum.

Portanto definimos problema como questão que mostra uma situação que exige discussão, investigação, decisão ou solução. (KERLINGER, p.35)
Se o problema era uma questão (interrogativa) a hipótese será uma solução (afirmativa). Temos assim, o fechamento e especificação do problema que devido à hipótese atraíra já as variáveis correspondentes. Somente a partir dela, ocorrerá a pesquisa propriamente dita pois a neutralidade e as correções e incorreções teóricas tornar-se-ão evidentes.

Vamos transformar então os problemas anteriores em hipóteses científicas: "O alto grau de protecionismo de um Estado aumenta a crise de seus parceiros econômicos". "A falta de identificação ideológica leva à cooperação específica".

A hipótese torna a questão objetiva, e tira o ser humano de seu mundo colocando-o à distância. Nas ciências em geral (e principalmente nas humanas) as hipóteses são, de alguma maneira, incertas, pois somente com a conclusão da pesquisa é que ela será ou não comprovada.

Assim, a hipótese de trabalho é a resposta (hipotética) a um problema cuja solução se realiza toda investigação. (BOUDON;LAZARSFELD,in:LAKATOS p.48).

Por último, as variáveis são os componentes testáveis da pesquisa, a partir das quais é que se desenvolverá. Os acontecimentos e mudanças que nelas ocorre será a base das análises que demonstrará se a hipótese é aplicável ou não.

Assim, as variáveis podem adquirir diversos valores mensuráveis (mínimo de dois), pois esta diferença é que o pesquisador verificará, e quais conseqüências estas mudanças trarão ao objeto de estudo, tais como: protecionismo (aumento-diminuição); identificação ideológica (maior-menor); integração (profunda-superficial); espaço geográfico (longo-curto).

Define-se cientificamente a variável como o aspecto discernível de um objeto de estudo; são aspectos particulares que podem assumir valores distintos e serem medidos para testar a relação enunciada por uma proposição. (KORN,in:LAKATOS p.9).

Toda pesquisa é então constituída por no mínimo duas variáveis que se expressam de maneira diferente, são as variáveis independentes e dependentes.

A variável independente determinará a variável dependente. Os fatores manipuladores serão condicionados à variável independente que se refletirá na variável dependente; a transformação da segunda é que será motivo de análise pois dependendo de como a primeira reagir ela terá um comportamento diferente.

Muitas vezes as transformações ocorridas com a relação entre as duas variáveis têm resposta em outros fenômenos que devem ser analisados pelo pesquisador. Estes são colocados em forma de variáveis. Assim, um objeto de estudo poderá conter mais que duas variáveis para compor a imagem necessária e verossímil que se deseja.

A relação entre as variáveis pode ser assimétrica, quando há uma série de outros fatores que estabelecem a relação entre as variáveis (como citado acima) ou simétrica quando uma das variáveis se torna pré-requisito para o surgimento ou transformação da outra. Sendo assim, a hipótese "o alto grau de protecionismo de um estado aumenta a crise em seus parceiros econômicos" mostra uma relação assimétrica pois não há protecionismo e parceiros econômicos sem livre mercado; em "distância geográfica leva à cooperação específica" há simetria já que seria impossível estabelecer um bloco supranacional sem a ligação de fronteiras.

Um dos principais fatores da pesquisa científica é a teoria, ela guiará o pensamento, definições e análises utilizadas. Mediante hipótese e variáveis se estabelece o modelo mais eficaz para reger a pesquisa; a teoria facilita o trabalho do pesquisador, reduzindo seu objeto de estudo a visão da teoria que automaticamente já considera e desconsidera alguns elementos. Não há a necessidade de explicá-la por inteiro, somente os pontos que interferem na análise, e com as citações bibliográficas o leitor tem como ir direto à fonte utilizada.

Uma forma prática de estabelecer os primeiros (e fundamentais) passos na pesquisa é direcionar quais serão os principais elementos, organizando por exemplo, através de um organograma:

Há uma ligação direta entre todos os componentes que acabam constituindo uma base sólida para a pesquisa.

Exemplo:


O problema escolhido "Como a União Européia afeta a economia americana?" é extremamente amplo, por isso a hipótese que o acompanha restringe o problema à relação protecionismo - depressão, já indicando qual será o objetivo do trabalho e a proposição a ser afirmada. A variável independente protecionismo será o fenômeno manipulado, seu aumento e diminuição refletirá na variável dependente depressão que pode ter acréscimos ou decréscimos devido a ela. Há entre elas outro fator que necessita avaliação, o livre comércio. Sem ele, a relação não se estabeleceria, pois a diminuição ou aumento do protecionismo só pode ocorrer em relações de mercado livre.

A teoria neo-clássica já afirma que a atuação dos atores dentro do sistema internacional define as estruturas do próprio sistema, assim a pesquisa terá um ponto de vista definido no qual o mercado e os Estados (principais atores) terão importante ligação.

Depois de mencionar termos como "manipulação", "análise", "componentes testáveis" devo lembrar que o empirismo não tem como ser utilizado, por exemplo, nas relações internacionais, já que os objetos de estudo não podem ser manipulados de acordo com o pesquisador; analisam-se as transformações geradas pelo próprio meio e as supostas respostas lógicas do sistema. Deve-se levar em conta também que a história é imprevisível, estabelecem-se probabilidades que só serão confirmadas ou negadas no futuro, depois que todos os fatos relacionados ocorrerem.

Bibliografia:

KERLINGER, F. N. Metodologia da pesquisa em Ciências Sociais. São Paulo: Editora Pedagógica e Universitária, 1979.
LAKATOS, E. Maria; MARCONI, M. de Andrade. Metodologia Científica. São Paulo: Atlas, 2.000


 

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